21 de jun. de 2010

Começar de novo

Por Viviane Roux

Tenho um encontro. , uma vírgula depois do ponto mesmo subvertendo as regras chatas da gramática, mas preciso me desculpar com o leitor pela palavra “encontro”. Sei que o tema aparece com frequência em minhas narrativas e mesmo correndo o riso de parecer repetitiva - e chata - torno a usá-la. Tenho um encontro.
Hoje é diferente. Meu rosto está limpo, enfim limpo, como bumbum de neném. Comecei um processo há um tempo de lavar essa minha cara. Na primeira vez enchi minhas mãos com água gelada e joguei no rosto, como um susto. Com o susto algumas rugas se formaram e fiquei um longo período “agüentando” esses traços marcando o meu rosto. Qualquer um que me visse enxergava essas marcas, havia um vinco fundo na testa e os dois olhos abaixo, cansados no meio de olheiras.
A máscara que eu havia usado por tanto tempo começou a se desmantelar. Sujou bastante meus travesseiros em gotas salgadas durante o longo processo de me deixar. Nosso apego era tanto (a máscara me amava), que um dia, esquecendo-me dela, me peguei rindo em um reflexo no vidro, quem é essa? Já não me reconhecia sem ela e foi preciso rever dezenas de fotografias e cartas para lembrar onde exatamente ficava cada expressão que me aprisionava.
Mesmo borrada e feia, aquela maquiagem grudara em mim de tal forma que nem o mais profundo desejo de me ver livre dela conseguiu demovê-la. E foi um negócio de comprar demaquilante importado, leite de rosas e até álcool. Não me incomodava esfregar na pele qualquer possibilidade de me livrar daquelas tintas.
Vendo que por teimosia ou qualquer coisa ruim que não passava, aquele grudo não saía do meu rosto (logo ele que é tão bonito) , acabei por aceitar aquela situação. Não que eu exibisse feliz aquela máscara, pelo contrário, ela me doía. Mas passei a conviver com ela, estava ali, quem se esforçasse enxergava e confesso que eu já me sentia bem pesada com o que andei colocando por cima para escondê-la.
Ao sair todos os dias no sol, chuva, ao me submeter a esse processo que chamam tempo, reparei que a máscara foi caindo. A ruga da boca se desfez, revelando um sorriso inteiro, havia tanto tempo que só o dava com um lado da boca.
Minha pele está lisa, saudável, pronta para ser maquiada novamente mas duvido que o faça por agora, tenho um rosto lindo, seria injustiça com esses traços que herdei de vovó, escondê-los.
Acordei antes do horário usual. Tomei banho quente, lavei o rosto com sabonete líquido com cheiro de cravo. Após o banho passei um algodãozinho embebido com leite de colônia. Não tenho rugas. Rosto liso.
Tenho um encontro hoje e vou com a alma, digo, com a cara lavada.

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